Estação Carandiru

abril 28, 2017






Título: Estação Carandiru
Autor: Drauzio Varella
Editora: Cia das Letras
Páginas: 297
Ano: 1999

Gênero: Ciências Humanas










Com certeza você já ouviu falar em Dráuzio Varella. Médico Oncologista, ele é uma personalidade que tem grande destaque na mídia. Além da inegável competência para a medicina, Varella demonstra também talento para a literatura.

Varella inicia sua escrita descrevendo o ambiente do presídio e suas sensações ao também se ver privado da liberdade durante o trabalho. As condições sanitárias são o primeiro momento de choque.

O presídio que deveria comportar menos de 4000 indivíduos era superlotado, tendo celas com mais de 20 pessoas que dormiam amontoadas. Tuberculosos não tinham assistência e transmitiam a doença para os demais, além de que, antes da chegada do médico com seu projeto, não havia nenhum programa de prevenção à AIDS, uma epidemia que se alastrava entre os detentos.

 Varella percebeu que apenas palestras sobre AIDS não ajudariam na situação dos presos que morriam aos montes sem receber nenhum cuidado. Seria necessário uma equipe ambulatorial disposta e bem paga para aceitar trabalhar naquelas condições, o que era impossível, devido à ausência de verba do governo.

Assim, o médico escolheu se voluntariar e exercer seu ofício sozinho, apenas com ajuda de seus assistentes detentos, correndo risco de contrair inúmeras doenças ou ter sua segurança e integridade física arriscadas.
Dr. Drauzio se tornou amigo de muitos presos, curando inúmeros e ouvindo suas histórias de vida, cada uma transcrita em um capítulo,  os quais eram, muitas vezes, ditados pelos próprios detentos. A vida dos presos antes da Detenção e o estilo de vida fora das grades é outro motivo de choque para o leitor.

Para muitos o crime é apenas um trabalho como qualquer outro e as armas um meio de produção. Enquanto são maridos e pais exemplares, alguns não hesitam em matar se acharem necessário, uma vez que essa é a maneira que encontraram para garantir uma vida “digna” para suas famílias.

As drogas se tornaram outro problema forte do Carandiru. A maior parcela dos presos era viciada e a cocaína injetável se tornou o maior fator transmissor de AIDS entre os detentos. Com as massivas campanhas de Varella contra o vírus da doença, os presos concluíram que era melhor deixar de aplicar cocaína na veia e substituí-la pelo crack. Obviamente, apesar de não ser essa a intenção do médico, o número de doentes decaiu drasticamente após a cocaína perder espaço.

Sem mais, o ápice do livro é a narração do Massacre ocorrido no dia 2 de outubro de 1992. Na Detenção estava rolando um campeonato de futebol entre os presos, evento comum e que gerou problemas. Porém, nesse dia fatídico uma briga boba tomou proporções maiores e desencadeou uma rebelião (não se sabe ao certo qual o motivo da confusão, algumas testemunhas afirmam que começou por causa de um espaço no varal). Como boa parte dos detentos não perceberam o que ocorria por estarem no jogo, não puderam tomar posição para se defenderem de uma provável invasão policial. 

O massacre ocorreu um dia antes da eleição para governador e o número “oficial” de mortos, 111 (o autor dá a entender que o número real de mortes foi muito maior, podendo ser constatado por uma simples caminhada no pavilhão esvaziado após o ocorrido), só foi divulgado 20 minutos antes do fechamento das urnas.

O que fica é um livro escrito sem meias palavras, característica que o deixa como algo que incomoda. A reflexão que ele chama para questões sobre penitenciárias, direitos humanos e a certeza de que em todo lugar, por pior que sejam as condições, é possível ouvir histórias e seus sentimentos emplacados, o tornam um livro único. Escrita simples, direta e bem feita. Estação Carandiru vale muito mais do que a leitura. Vale a reflexão, a paixão e a fixação em falar dele para todo o mundo.



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